Isso é que é preguiça!
Perdido está o administrador
que esquece o seu muiraquitã.
Alfredo Behrens
Abstract
Brazilian cultural traits, among which a marked orientation towards collectivism, may be favoring the choice of public sector employment among the better educated, depriving the private sector of the talent necessary to ensure the shy country’s international competitiveness. I sugest bridging the gap between corporate organizational culture and national culture as a means of enhancing managerial effectiveness and international competitiveness.
Resumo
Com a característica irreverência do brasileiro é atribuída à preguiça a alegada preferência do brasileiro pelo emprego público. A diversão esconde uma dor mais profunda. O emprego público atenderia melhor do que o emprego no setor privado às características da cultura brasileira, que mostra um marcado coletivismo e aversão ao risco. Isto poderia ter importantes desdobramentos, pois a preferência dos mais titulados pelo emprego público estaria privando o setor privado do potencial inovador necessário para competir internacionalmente, uma opção que também não é favorecida pela cultura brasileira.
Artigo
A cultura brasileira é mais coletivista e mais fechada ao mundo exterior do que a cultura do povo dos EUA. A primeira característica atrapalha a eficácia no Brasil de técnicas administrativas desenhadas para culturas individualistas. A segunda característica limita ao mercado interno as soluções da inteligência brasileira, privando o setor produtivo do tamanho do mercado necessário para diluir no volume de vendas o custo da inovação.
Daí que a inovação brasileira que concorre no exterior seja principalmente fruto da pesquisa desenvolvida ou financiada pelo governo. Isto vale tanto para a tropicalização da semente da soja, pela Embrapa, quanto para a EMBRAER ou a Petrobrás.
Seriamos coletivistas e fechados ao mundo a esse ponto? Uma forma de revelar estes traços culturais é compararmos o que os eleitores quiseram ouvir nos EUA e no Brasil em dois momentos históricos semelhantes: quando os povos votaram por governos de renovação: o do Presidente Kennedy e o do Presidente Lula.[1]
Nos dois discursos há até diferenças de estilo; o discurso de posse do Presidente Lula é quase três vezes mais extenso que o do Presidente Kennedy. Também há diferenças de foco, o Presidente Kennedy menciona “Ciência” duas vezes, mas “fome” nenhuma vez. Esta aparece 13 vezes no discurso do Presidente Lula que totalmente omite a referencia à “Ciência”.
Mas ambos são discursos de renovação; tanto que o Presidente Kennedy usa inclusive três vezes a palavra “revolução” enquanto que o Presidente Lula, possivelmente atento às criticas conservadoras, omite totalmente a palavra “revolução” e opta pela 11 vezes por “reforma”, sua forma moderada.
Individualismo versus Coletivismo
A sociedade americana é notadamente individualista e libertária. Para essa sociedade o Presidente Kennedy alude à “liberdade” 10 vezes, enquanto que o Presidente Lula nenhuma vez sequer. Ainda, quando o Presidente Lula se refere ao individuo o faz negativamente, se referindo ao “egoísmo” do “individualismo”.
Eliminado o individuo do discurso do Presidente Lula, este se dirige às pessoas entanto que membros de organizações ou conjuntos: povo, família, partido, nação, país. Ajustada pela diferença de extensão dos discursos, esta abordagem coletivista do Presidente Lula é duas vezes mais freqüente do que no discurso do Presidente Kennedy.
O tamanho do mundo de cada um
O “nós” do Presidente Kennedy é a humanidade. Esta aparece sete vezes mais no discurso de Kennedy do que no discurso do Presidente Lula. No discurso do Presidente Kennedy as referencias ao “globo” e ao “mundo” são quatro vezes mais freqüentes do que no discurso do Presidente Lula, que pronunciou se discurso quatro décadas mais tarde.
Já a referência à nacionalidade (brasileiro/a ou americano/a) aparece quase duas vezes mais no discurso do Presidente Lula do que no do Presidente Kennedy.
Significado das diferenças
Discursos de posse não são apenas discursos de vitória e balizamento; são discursos apelando à união após a definição de uma contenda eleitoral. São discursos que buscam despertar ressonância em todo o eleitorado, mesmo entre aqueles que não tenham votado por esse presidente. Por isto esses discursos apelam à orientação cultural primordial.
As grandes diferenças entre os discursos dos Presidentes são justamente as que apontamos acima: a cultura brasileira seria mais orientada a formas coletivistas de relacionamento e ação; e seria menos aberta ao mundo do que a cultura americana; que busca projetar a sua imagem no exterior.
Esta projeção se manifesta inclusive na aplicação no Brasil das técnicas administrativas desenvolvidas pelas empresas americanas. São técnicas pobres em teoria, mas provadas na prática, nos EUA. Refletem o que funciona melhor na sociedade americana, que é mais individualista do que a brasileira.
Como as técnicas são pobres em teoria e produto de uma sociedade universalista triunfante, esta acredita que suas técnicas administrativas deveriam funcionar igualmente bem em qualquer sociedade. Porem, as técnicas foram provadas numa sociedade individualista. Quando transpostas ao ambiente brasileiro essas técnicas administrativas precisariam ser adaptadas porque no Brasil, mais coletivista, o grupo de referencia do individuo tem um peso que nos EUA não tem.
Numa orientação coletivista o individuo é definido pelas suas relações de pertinência; a busca do sucesso individual cede lugar à lealdade ao grupo. No Brasil o triunfo individual isola, não é prêmio. A cultura brasileira tem uma forte orientação coletivista, ao menos quando comparada à cultura dos países anglo-saxões. Nestes, a iniciativa individual não é apenas esperada, ela é recompensada. Entre nós a iniciativa individual precisaria ser endossada pelo grupo de referencia do individuo. Sem esse endosso o individuo perde o apoio do grupo ao qual deve lealdade. Um ambiente sem fortes laços de lealdade não é um ambiente grato a nossa cultura.
No Brasil, o setor privado moderno emula técnicas administrativas do universo cultural anglo-saxão, estimulando a competitividade individual através dos incentivos pecuniários e outros. Há um segmento globalizado da população brasileira que se acomoda com relativa facilidade no clima organizacional norte-americano. Mas não seria a maioria da população. Tanto que o Presidente Lula, porta-estandarte do anseio coletivista, derrotou seu adversário por 2 a 1; adversário este que, na época, representava uma perspectiva mais cosmopolita, visto que era associado a uma corrente política que tinha propiciado um aumento significativo dos investimentos diretos estrangeiros no Brasil.
Não é defeito uma orientação coletivista; no Japão ela seria ainda maior. O defeito radica na falta de sintonia entre a cultura nacional e a cultura organizacional propiciada pelo estilo administrativo. Nesse hiato prospera a ineficácia; sacrifica-se a eficiência porque os trabalhadores não respondem no Brasil aos mesmos incentivos da forma que respondem nos EUA.
Sugiro, inclusive, que a perda não estaria apenas na eficiência dos que estão empregados no setor privado, trabalhando sob culturas organizacionais que não refletem seu íntimo. A perda se daria também pelo desinteresse de trabalhar no setor privado entre aqueles que podem optar pelo ambiente em que gostariam de trabalhar. Grandes talentos estariam sendo alijados do setor privado brasileiro porque o clima organizacional deste não condiz com o que os brasileiros almejam como um lugar para trabalhar. O setor público brasileiro é brasileiro até na sua administração; ali os brasileiros sentem-se na sua casa e do setor público não querem sair; tem até fila para entrar, como fica evidente cada vez que se abrem concursos.
Esta poderia ser ao menos uma das razoes pelas quais o setor público atrairia tantas pessoas tão altamente tituladas, enquanto que o setor privado emprega tantos dos quem não tem competência para passar nos concursos públicos. Esta poderia ser, inclusive, uma das razoes pelas quais temos nas universidades uma proporção de cientistas e engenheiros duas vezes maior do que nos paises desenvolvidos. Parte da explicação pode ter profundas raízes culturais e a solução passaria por adaptar a administração das empresas à cultura brasileira.
Essa é a questão e não esta plenamente nas mãos do governo mudar a situação. A solução esta também na capacidade do setor privado aprender a atrair e reter talentos com a ênfase com que desenvolve o talento de produzir e vender seus produtos no mercado interno. Infelizmente este esforço não vem sendo realizado. O setor privado parece se deixar seduzir pela fácil realização de jamborees de cultura administrativa importada, pagando-se pequenas fortunas para assistir ao que poderia ser lido em livros. Isso é que é preguiça!
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Para descansar a vista:
Sobre o discurso de Kennedy, leia “Ask Not, Tell Not,”de Louis Menand, em The New Yorker, Novembro 8, 2004 pp 80-89.
Para cultura brasileira: DaMatta, Roberto; “A Casa e a Rua” Editora Rocco, 1997
Para o impacto da cultura brasileira na cultura organizacional desenvolvem-se importantes esforços em torno dos Professores Fleury da FEA/USP e de Motta e Caldas na EASP da FGV. Ambos grupos editaram interessantes coletâneas: “Cultura e Poder nas Organizações”, Fleury e Fisher, Editora Atlas 1996; e “Cultura Organizacional e Cultura Brasileira”, Motta e Caldas, Editora Atlas 1997.
Ilustrações, na ordem em que aparecem:
Andrew Wyeth, Christina’s World, 1948
Tarsila do Amaral, Operários, 1933